O texto que abre a coluna mantida pela jornalista Rosane de Oliveira no jornal Zero Hora, em sua edição de quarta-feira 9, é um bom resumo da falência do discurso que vem, na maior parte do tempo, governando o Rio Grande do Sul nas últimas décadas. A jornalista defende o projeto de venda de uma área equivalente à metade do Morro Santa Tereza, argumentando que somente em um “Estado ideal” a referida área poderia ser preservada como uma área pública, como “uma imensa área verde”, exemplifica. Como o Rio Grande do Sul não é um Estado ideal é preciso passar o terreno nos cobres.
O discurso não é novo. Trata-se da mesma lógica argumentativa que justificou, por exemplo, as privatizações implementadas pelo governo Antônio Britto (PMDB). Aliás, para o campo político que governou o Estado em 12 dos últimos 16 anos, a única forma de enfrentar a “falência do Estado” é enfraquecendo ainda mais o Estado, vendendo patrimônio público, desmontando políticas sociais, implantando choques de gestão onde as primeiras vítimas são a educação, a saúde e a segurança. E, quanto mais o Estado fica enfraquecido, mais se usa o discurso da “falência do Estado” para enfraquecê-lo ainda mais.
Depois, diante dos problemas agravados por esse aprofundamento da “falência do Estado” dilui-se a responsabilidade numa história que não tem nomes nem partidos. Os problemas viram problemas de “sucessivas administrações”. Essas administrações só têm nomes e certidão de batismo quando ousam tocar outra música.
“O Rio Grande do Sul não é um Estado ideal. Não se pode mais esperar por soluções mágicas”, escreve a colunista de ZH. Essa é a disjuntiva apresentada como sendo expressão do realismo e do bom senso. Quem se opõe ao projeto da venda de metade do Morro Santa Tereza, por suspeitar que as motivações do projeto têm mais a ver com desejos imobiliários do que com qualquer outra coisa, é adepto de “soluções mágicas”. Só com a venda da área o Rio Grande do Sul encontrará solução para o atendimento de seus adolescentes infratores.
Sem vender o terreno, como financiar a reestruturação? – pergunta Rosane de Oliveira. Ou, dito de outro modo, sem vender patrimônio público como financiar políticas públicas? Esse discurso empoeirado e anacrônico vem sendo repetido monotonamente nas últimas décadas.
Cabe lembrar o espírito público de um de seus mais entusiasmados defensores, o ex-governador Antônio Britto, que deixou seu governo pela porta dos fundos do Palácio Piratini e foi ganhar dinheiro na iniciativa privada que não gosta de “soluções mágicas” e que não se cansa de denunciar a “falência do Estado”. Menos, é claro, quando ela própria está ameaçada pela falência, e aí bate às portas do Estado para “pedir uma ajuda”. Entre uma crise e outra, entre uma apropriação privada de recursos públicos e outra, esse discurso vai sendo atualizado com palavras que não conseguem disfarçar sua verdadeira natureza: privatizar (ou seja, tornar privado o que era público), aplicar choques (de gestão, de governança), adotar o zero como objetivo (tolerância zero, déficit zero…). Restringir, vender, dar choques, zerar…Esses são os termos desse discurso falido que não se cansa de consumir vorazmente os bens públicos e a denunciar a falência do que está consumindo.
Fonte: Blog RS Urgente
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